Depois de um fim de semana matando a saudade da família, era hora de voltar. E lá estava eu, na sala de embarque, aguardando a hora de entrar no avião pra ter aquela sensação maravilhosa que eu sempre tenho no pouso e na decolagem. Começam a chamar para o embarque, num primeiro momento apenas dos assentos 16 a 32. Confiro meu assento, 25F. Agradeço em pensamento ao meu pai por ter lembrado que eu gosto de ficar atrás da asa e na janela. Adoro ficar olhando o movimento da asa, e também adoro observar como tudo parece pequeno lá de cima. As pessoas, casas, cidades, até os problemas ficam menores. Cada vôo costuma ser uma lição de humildade, a lição das pequenas coisas.
Entro no avião, sendo saudado com o artificial “boa tarde” da tripulação, e me dirijo ao tal 25F. Ao chegar encontro um casal de idosos já sentados, estando o senhor na janela. “Olá… Eu estava marcado nessa cadeira, mas se o senhor quiser pode continuar aí, sem problemas…”, eu digo. Ele me responde: “Ah, então eu prefiro ficar aqui, é melhor!”. Eu bem sabia disso, mas como não me custaria nada a cortesia, sento-me no corredor. Afivelo meu cinto e involuntariamente passo a escutar a conversa entre eles e a observar suas interações, as suas pequenas coisas. Aí começou a minha lição desse vôo.
Aquele casal transbordava simpatia de um jeito incrível. Sabe quando você olha nos olhos de alguém e se sente um pouquinho mais feliz? Desse jeito. Eles estavam vindo de Goiás, provavelmente já tinham enfrentado uma cansativa viagem até Fortaleza, e ainda iriam até Recife. Mas nem isso foi capaz de tirar o bom humor deles. Engraçado até comparar essa postura com a de outros passageiros, incomodados com qualquer coisa. Perguntei se eles não estavam cansados, e eles disseram: “Estamos, mas falta pouquinho pra chegarmos, então estamos felizes!”. Queria eu ter metade dessa maturidade. Conversavam entre si, falando dos compromissos da semana e lembrando de amigos que moram longe. Dava pra sentir que sabiam tudo sobre o outro. Ele fala do que ele quer fazer, ela do que ela quer fazer, e os dois demonstravam interesse no que o outro fala, no que o outro quer. Nesse momento o comandante avisa que vamos decolar, e eles se dão as mãos. Logo vem a sonolência e ela deita no ombro dele, ainda de mãos dadas, e assim permanecem até começar o pouso.
Como não pude passar o vôo olhando pela janela, passei-o todo pensando naquilo que estava se passando do meu lado. Eles deveriam estar casados há mais ou menos 40 anos, eu suponho, mas ainda mantinham o toque, o carinho. E, acima de tudo, o respeito um pelo outro, a cumplicidade, o companheirismo. Falavam um ao outro como se fala com o melhor amigo. E, afinal, é isso que um casal deve ser, amigos, cúmplices. Podiam não ter os mesmos compromissos, gostos, mas faziam questão de estarem presentes, de se interessarem pela vida do outro. E não se esqueceram das pequenas coisas. Tão pequenas quanto uma casinha vista lá de cima, mas tão imprescindíveis quanto essa mesma casinha, pra quem tá lá embaixo, pra quem mora nela.
Essa lição das pequenas coisas não foi de humildade. Dessa vez, a lição das pequenas coisas foi de amor.
