A lição das pequenas coisas

14 05 2012

Depois de um fim de semana matando a saudade da família, era hora de voltar. E lá estava eu, na sala de embarque, aguardando a hora de entrar no avião pra ter aquela sensação maravilhosa que eu sempre tenho no pouso e na decolagem. Começam a chamar para o embarque, num primeiro momento apenas dos assentos 16 a 32. Confiro meu assento, 25F. Agradeço em pensamento ao meu pai por ter lembrado que eu gosto de ficar atrás da asa e na janela. Adoro ficar olhando o movimento da asa, e também adoro observar como tudo parece pequeno lá de cima. As pessoas, casas, cidades, até os problemas ficam menores. Cada vôo costuma ser uma lição de humildade, a lição das pequenas coisas.

Entro no avião, sendo saudado com o artificial “boa tarde” da tripulação, e me dirijo ao tal 25F. Ao chegar encontro um casal de idosos já sentados, estando o senhor na janela. “Olá… Eu estava marcado nessa cadeira, mas se o senhor quiser pode continuar aí, sem problemas…”, eu digo. Ele me responde: “Ah, então eu prefiro ficar aqui, é melhor!”. Eu bem sabia disso, mas como não me custaria nada a cortesia, sento-me no corredor. Afivelo meu cinto e involuntariamente passo a escutar a conversa entre eles e a observar suas interações, as suas pequenas coisas. Aí começou a minha lição desse vôo.

Aquele casal transbordava simpatia de um jeito incrível. Sabe quando você olha nos olhos de alguém e se sente um pouquinho mais feliz? Desse jeito. Eles estavam vindo de Goiás, provavelmente já tinham enfrentado uma cansativa viagem até Fortaleza, e ainda iriam até Recife. Mas nem isso foi capaz de tirar o bom humor deles. Engraçado até comparar essa postura com a de outros passageiros, incomodados com qualquer coisa. Perguntei se eles não estavam cansados, e eles disseram: “Estamos, mas falta pouquinho pra chegarmos, então estamos felizes!”. Queria eu ter metade dessa maturidade. Conversavam entre si, falando dos compromissos da semana e lembrando de amigos que moram longe. Dava pra sentir que sabiam tudo sobre o outro. Ele fala do que ele quer fazer, ela do que ela quer fazer, e os dois demonstravam interesse no que o outro fala, no que o outro quer. Nesse momento o comandante avisa que vamos decolar, e eles se dão as mãos. Logo vem a sonolência e ela deita no ombro dele, ainda de mãos dadas, e assim permanecem até começar o pouso.

Como não pude passar o vôo olhando pela janela, passei-o todo pensando naquilo que estava se passando do meu lado. Eles deveriam estar casados há mais ou menos 40 anos, eu suponho, mas ainda mantinham o toque, o carinho. E, acima de tudo, o respeito um pelo outro, a cumplicidade, o companheirismo. Falavam um ao outro como se fala com o melhor amigo. E, afinal, é isso que um casal deve ser, amigos, cúmplices. Podiam não ter os mesmos compromissos, gostos, mas faziam questão de estarem presentes, de se interessarem pela vida do outro. E não se esqueceram das pequenas coisas. Tão pequenas quanto uma casinha vista lá de cima, mas tão imprescindíveis quanto essa mesma casinha, pra quem tá lá embaixo, pra quem mora nela.

Essa lição das pequenas coisas não foi de humildade. Dessa vez, a lição das pequenas coisas foi de amor.





Desabafo

21 03 2012

“[Sobre a capacidade japonesa de reconstrução após desastres]… Não foi diferente com o terremoto do ano passado. A região de Tohoku também deu ao mundo exemplos de reação em tempo recorde. O tremor destruiu mais da metade da Tohoku Expressway, uma rodovia de 675 quilômetros que liga Tóquio ao norte do Japão. Em menos de um mês, ela estava reaberta ao tráfego. Nas cidades da Serra Fluminense atingidas pelas enchentes de janeiro de 2011, numa tragédia de dimensões bem menores que no Japão, ainda não foi construída nenhuma das 75 pontes prometidas pelo Estado para substituir as que caíram – os moradores improvisam passagens de madeira.” (Revista Época, edição 721, página 78)

O que se deve sentir ao ler isso? Vergonha? Revolta? Indignação? Somos o país dos desmandos, o país da corrupção, o país do jeitinho. Alguém se orgulha disso? Parece que temos dinheiro o bastante para tocarmos uma Copa do Mundo Fifa – porque do Brasil, mesmo, ela não é, nem será. Ou você acha que o povo brasileiro, o povo mesmo, vai ser capaz de assistir aos jogos? E o que o povo de Natal ou de Manaus, por exemplo, vai ganhar com um elefante branco e sem uso nas suas cidades? – em ritmo emergencial, pagando caro pelos atrasos, mas não temos para obras de infra-estrutura, saúde, segurança pública e educação. Até quando vamos sobreviver de pão e circo?

Um governo não é nada menos do que o espelho da população naquele dado momento histórico. Há quanto tempo somos coniventes com toda essa corrupção? Pensamos “sempre foi assim, nunca vai mudar” e nunca vai mesmo, enquanto só pensarmos dessa forma e não fizermos nada a respeito. Até quando?





Inspiração para todos.

6 03 2012

Sempre tive dentro de mim a vontade de deixar um mundo melhor para os meus filhos. Quem me conhece sabe disso. Criei esse blog e escrevo esses textos com o intuito de inspirar as pessoas a verem o mundo de forma diferente, tentando semear nelas idéias, mudando pontos de vista. Tornar o dia de cada leitor desse blog um pouquinho melhor fazia com que eu sentisse que estava fazendo a diferença, mesmo que em apenas um universo restrito. A influência de alguém completamente desconhecido é muito pequena, e a minha voz é muito baixa. Mas isso não quer dizer que seja preciso ser alguém grandioso para poder fazer a diferença. Não é preciso ser um ator famoso, um político importante ou um multimilionário. O povo é quem faz de um artista famoso, o povo é quem elege políticos, e é o povo quem faz o dinheiro circular e gerar mais dinheiro para os ricos. O poder sempre esteve na mão do povo. O grande problema é que esse mesmo povo parece estar sempre alheio ao que realmente aflige o mundo. Sabem de tudo o que acontece em tal seriado, ou em tal novela, mas não sabe o que o prefeito, governador ou presidente fazem com seu dinheiro. Como bem dito no vídeo abaixo, vivemos na era do compartilhamento de informações (praticamente) sem fronteiras, então por que não usar essa ferramenta extremamente poderosa para mostrar o poder do povo? Esse vídeo trata-se exatamente disso. Trata de pessoas que, como eu, querem mudar o mundo, querem deixar um mundo melhor para seus filhos. Diferente de mim, essas pessoas já começaram a fazer a parte delas. Eis um exemplo de como o poder que está na mão do povo pode ser usado para tornar o mundo um lugar melhor.
Se você não considera essa a sua causa, escolha a sua, e lute por ela. Use sua criatividade, espalhe suas idéias, compartilhe seus ideais, mobilize-se, una-se àqueles que desejam a mesma coisa. Tudo isso é gratuito, e tudo isso pode ser feito a qualquer hora, em qualquer lugar. Esperar que algo seja feito pelos outros é ser conivente com tudo o que acontece. Por que não começar com você? Por que não começar agora? Temos provas e mais provas que aqueles que estão no poder ainda tem ouvidos. E eles escutam muito bem o que o povo fala, quando o povo TODO fala. Quando falamos todos com uma só voz, em alto e bom som.
Tirem trinta minutos para assistirem ao vídeo. Inspirem-se, empolguem-se, acreditem que isso pode e está sendo feito. Há pessoas no mundo dispostas a fazerem diferente. Eu garanto, ninguém vai se arrepender. Compartilhem, se for do agrado. Façam com que mais vozes se unam às nossas. Façam com que mais pessoas conheçam essa causa.
O futuro é produto das nossas ações no presente. Não seja passivo, pois não terá nenhum direito de reclamar do que terá no futuro.

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KONY 2012 from INVISIBLE CHILDREN on Vimeo.





Bonsai

9 09 2011

Num dia desses passava pela rua quando vi um homem extremamente mal cuidado, provavelmente faminto, pedindo comida. Nesse instante, um senhor passava ao lado desse homem. Esse senhor, com porte elegante, aparentemente rico, jogou-lhe 5 moedas de ouro com uma indiferença tão próxima do nojo que o pobre homem olhou para as moedas antes de apanhá-las, procurando nelas algo de errado. De qualquer forma, o faminto agradeceu-o bastante, sabendo que com aquilo poderia comprar comida.

Noutro dia, ao passar por essa mesma rua, revi o homem faminto. Seu estado não havia mudado: trapos, coberto de sujeira, aspecto de quem não tinha uma refeição há dias. Dessa vez, enquanto eu observava, nenhum passante lhe deu atenção, mas um fato interessante aconteceu. Um garoto -  que se apresentava quase da mesma forma que o homem faminto -  aproximou-se, com algumas lágrimas nos olhos e um pedaço de pão na mão. Com certa relutância – talvez por cada parte faminta do seu pequeno corpo ir contra seu futuro gesto – ele estendeu a mão, oferecendo um pedaço do pão ao homem. Este, enchendo seus olhos d’água, não poderia resistir ao instinto de saciar sua fome – mesmo que se odiasse por deixar aquele pequeno garoto continuar com tanta fome – e pegou metade do já pequeno pedaço do pão.

Passei um certo tempo pensando nessas duas cenas, tentando entender aquilo. Com certeza, com cinco moedas de ouro, o homem comprou bem mais que um pedaço de pão; ele deve ter se alimentado durante dois dias. Mas foi com o pequeno pedaço de pão que ele se comoveu. Foi com o gesto do garoto, que abriu mão de algo tão valioso para si, que o homem realmente teve seu coração tocado.

Aprendi então, com aquele homem faminto, que o que importa não é só o tamanho ou quantidade do que recebemos, mas também o que isso significou para quem nos deu.

Muitas vezes, em nossas vida, reclamamos por não receber as coisas como gostaríamos. Acontece que, em muitas dessas vezes, deixamos de notar que há outras pessoas talvez se sacrificando para que tenhamos aquele tanto, mesmo que seja um tantinho só. Se alguém não te ama como você gostaria, não quer dizer que essa pessoa não te ame com todas as forças que ela tem.

Ao esperar das pessoas aquilo que nos dispomos a receber, podamos algo que deveria crescer livremente; tentamos dar a nossa forma, mas acabamos impedindo a manifestação, o crescimento natural daquilo. Criamos um Bonsai.

E um Bonsai pode até ser uma obra de arte, mas é apenas uma miniatura decorativa daquilo que realmente poderia ser.





Ter e manter

3 08 2011

Num dia cinza, deparei-me com a seguinte afirmação: “É melhor ter e perder que não ter tido”. Por ela ter aparecido justamente em um momento no qual sofria a dor de uma perda, discordei dela quase que instantaneamente. Como aquilo pelo que estava passando poderia ser melhor que não ter de passar por tudo aquilo? Não fazia sentido.

Transformei a afirmação em uma pergunta e procurei opiniões, tentando achar argumentos que pudessem justificar a minha insatisfação, buscando respostas que endossassem a minha opinião construída na dor. Não consegui nada concreto, pois nenhum argumento seria o bastante para me convencer; ninguém seria capaz de me dar a minha resposta. Eu teria que encontrá-la sozinho, para que assim pudesse ter convicção que ela seria realmente minha.

Os dias se passaram, dando-me muito tempo para pensar – mesmo sem querer – na tal pergunta. Deram-me também muitas oportunidades com as quais pude aprender um pouco mais, amadurecer as idéias e acrescentar a elas um pouco do que eu conseguia apreender da observação. Mas isso foi pouco perto do que o que a dor me ensinou.

O fato de já ter sentido o ter e naquele momento estar sentindo o peso de ter perdido e não poder ter mais se mostrou o maior combustível para alimentar a mudança de perspectiva. Ter experimentado a felicidade é suficiente para reconhecer sua ausência, e a vontade de ser feliz novamente é mais que suficiente para servir como objetivo a ser alcançado. Se nunca tivesse tido, imagino que não teria a motivação necessária para sair do conforto e facilidade do igual, da inércia.

Se não tivesse passado por tudo que passei, se nada tivesse acontecido, não teria aprendido o que aprendi, e não teria motivo nenhum para buscar algo melhor, pois nem saberia se algo melhor realmente existia. E se um dia chegasse a ter a oportunidade de ser feliz de verdade acabaria cometendo aqueles erros, passando por aqueles problemas cuja solução já deveria ser clara, e dessa forma só adiaria o inevitável, mas não haveria como escapar do inexorável.

Parece que a cada insucesso, um novo pedaço é agregado a nós: Um alarme, que sempre quando estivermos prestes a repetir aqueles mesmos erros de outrora soa de forma ensurdecedora, alertando-nos sobre o que pode acontecer se continuarmos no erro. Além disso, lutamos muito mais para que as coisas futuras dêem certo, para que não seja preciso passar por tudo aquilo de novo. É aquela velha máxima, “O que não me mata, me fortalece”.

É provável que, para o nosso amadurecimento, seja preciso passar por tudo isso; sentir na pele o ruim para melhor valorizar o bom. Seria muito melhor se fosse possível simplesmente ouvir e seguir os conselhos das pessoas que já passaram por aquela situação, que já cometeram aqueles erros, mas verdade seja dita: Compreendemos muito mais o valor das coisas quando acontece com a gente, quando sentimos na pele.

Nisso, a resposta mostrou-se finalmente a mim. Ter e perder talvez seja uma etapa necessária para um dia conseguir Ter e Manter. Etapa essa pela qual espero nunca mais precisar passar.





O primeiro, e não o último

13 07 2011

Quando se sai com alguém pela primeira vez, o enredo é geralmente o mesmo: a moça sempre procura se arrumar da melhor forma possível, nervosa, vestindo e revestindo todas as roupas do seu guarda-roupa, maquiando-se, perfumando-se, e atrasando-se inevitavelmente. E o rapaz sempre espera por ela, tomado por ansiedade, porém compreendendo a importância daquele tempo pro que há de acontecer em seguida. Não se dá um pio, porque o sentimento, o calor, a força daquilo é enorme, não deixando espaço para mais nada, nem para a irritação. E quando os olhares finalmente se encontram, os olhos dizem o quanto ambos estão felizes de estarem vivendo aquele momento.

Sendo assim por que, quando o encontro já não é mais o primeiro, ficamos tão irritados por ter de esperar novamente aquela mesma pessoa que esperamos anteriormente? Parece que a paciência esvai-se ao longo do tempo. E por que não fazemos mais questão de dizer sempre o quanto valeu a pena aquele tempo que ficamos esperando? Não somos mais capazes de reconhecer o esforço do outro, a vontade de estar bem para a outra pessoa? E às vezes parece que simplesmente não temos mais vontade de nos esforçar, também. O sentimento acabou-se?

A rotina acaba acomodando as pessoas, colocando o sentimento em segundo plano, dando a falsa sensação de que o fato de estar com aquela pessoa é, por si só, forte o suficiente para que isso continue acontecendo – e, que fique bem claro: Não é. Não importa o quão rápido esteja seu carro, ou o quão longa seja a reta a sua frente; se você parar de acelerar, uma hora ele para. Cedo ou tarde ele para. A acomodação age como força de atrito, cada vez reduzindo mais o efeito do impulso inicial, fazendo com que deixemos de lado aquele brilho característico da paixão, do novo, e nos arrastando em direção à monotonia da inércia.

Acomodar-se é fechar-se para o que de mágico outrora moveu o universo para que tudo se iniciasse e viver apenas consumindo o que se criou a partir disso.

Uma vez fui vítima da acomodação. Perdi o que um dia cheguei a ter certeza que não perderia nunca por achar que não precisava mais me esforçar para manter aquilo vivo – tolice minha. Desde então, as marcas do que aconteceu são bem visíveis e as cicatrizes ainda doem, lembrando-me sempre do que passei quando eu estou prestes a esquecer.

Tem gente que diz que devemos viver cada dia como se fosse o último. Mas, talvez por tudo isso pelo que passei, criei certo repúdio da palavra ‘último’, Ela traz consigo toda essa sensação de acomodação, essa inércia por tudo que já houve antes. Além disso, ela faz referência quase que instantânea à palavra que eu menos gosto. Último, para mim, rima com Fim.

Desde então, penso de forma diferente: prefiro viver cada dia como se fosse o primeiro. Sinto essa necessidade, essa obrigação de fazer tudo como se fosse apenas a primeira vez. Até porque, pensando bem, de fato é. Essa fração de segundo em que tais fatos ocorrem e o contexto na qual ela está inserida são únicos, nunca antes e nunca mais vividos. É a primeira e a última vez que você vai ter a chance de fazer aquilo, naquele momento. Por que desperdiçá-la, então?

Faça de cada oportunidade um (re)começo. Olhe como se fosse a primeira vez que estivesse vendo na vida, com seus olhos brilhando de encanto. Diga o que sente como se fosse a primeira vez que falasse aquelas palavras, trocando apenas a insegurança pela certeza da realidade daquilo, pelo menos naquele espaço de tempo. Segure a mão de alguém com aquele ímpeto, aquela sede, aquela vontade de nunca mais soltar.

E espere pacientemente, porque mesmo sendo apenas a primeira vez, tenha certeza que quando ela sair estará perfeita. Assim como esteve em todas as outras primeiras vezes.





Cultivo

20 06 2011

Hoje, durante uma conversa com uma figura próxima – muito próxima – ouvi as seguintes palavras da boca dele, proferidas cada uma com uma certeza inabalável, uma força assustadora e uma precisão cirúrgica, mas impregnadas de tamanha tristeza, angústia e descrença que seriam dignas de fazer até o mais fervoroso entusiasta do bem tremer em suas bases.

“Eu cansei de confiar nas pessoas. Parece que não existem mais as palavras fidelidade, lealdade, gratidão, comprometimento e respeito no vocabulário de ninguém. Pra onde eu viro meu nariz, só sinto o cheiro de coisas apodrecidas. São as relações interpessoais, que já morreram há muito tempo, e hoje só exalam o odor característico da decomposição. E ainda crer na veracidade de tais relações é como ir para uma missa de corpo presente esperando que o defunto se levante e saia caminhando, alegre, como se nada tivesse acontecido. “

Nada pude fazer diante de tal declaração, mas isso ficou na minha cabeça durante algum tempo. E, durante esse tempo, não pude deixar de notar exemplos claros do que esse meu amigo falava. Não é preciso nem se esforçar. Basta olhar para o lado que com certeza se encontra uma relação que se encaixe nesse perfil. O que deveria unir as pessoas de forma inseparável, hoje, é a menor das considerações levadas em conta ao iniciar um relacionamento, seja ele de qual natureza for. A confiança é uma espécie em extinção, já que seu ecossistema natural – nosso interior – foi devastado, para que houvesse nele uma nova cultura (nos dois sentidos da palavra): A de vontades instantâneas, de coisas passageiras. Acabou que fomos desmatando um pedaço aqui, outro ali, e agora tudo está abarrotado de coisas muito menos importantes, mas que amontoadas acabam tomando espaço do que deveria realmente estar lá. Do que realmente fazia as coisas funcionarem. Largamos a plantação de subsistência pra plantar capim.

Mas nada é irreversível. Ainda há áreas de preservação da mata nativa aqui e ali. Ainda há bons exemplos, pessoas nas quais podemos nos espelhar, pessoas que nos ensinam sempre o que é confiar; sempre haverão. E delas podemos tirar as sementes. E, com o vento, essas sementes devem ser espalhadas. Nós somos o vento! Nossas ações diárias, nossas escolhas são responsáveis por carregar as sementes para longe, cobrindo uma área cada vez maior. Somos os responsáveis por semear. E quando finalmente essas sementes caem em solo fértil, quando elas encontram um coração receptivo, aberto, o ambiente propício, elas germinam.

Mas isso não é tudo. Até que essas sementinhas cresçam e dêem suas próprias sementes, é preciso muito cuidado, muita atenção, muita dedicação. E uma boa dose de sorte, também. A força da raiz, de acordo com a profundidade na qual ela está fincada no solo, vai ser testada de forma recorrente em cada vendaval. Em alguns momentos podem faltar nutrientes. Em outros, uma chuva torrencial pode tentar lavar tudo. Mas a cada percalço superado parece isso fica mais firme, mais forte. E daí em diante, não vai ser qualquer coisa que vai conseguir levar tudo o que já foi cultivado. E, um dia, eventualmente, aquela sementinha ínfima será uma árvore enorme, cujas sementes carregarão dentro de si a mesma força e a mesma razão que fez aquela primeira germinar.

Ao pensar nisso tudo, voltei a procurar meu amigo. Falei para ele as mesmas palavras que falo agora, aqui, e da mesma forma que ele me fez pensar em tudo o que me falou, eu o fiz pensar em tudo o que falei. E, talvez por cansaço de desacreditar em tudo, talvez pela necessidade que temos dentro de nós de nos agarrarmos a algo para crermos nos momentos difíceis, ou talvez por nele ainda restar uma pontinha de esperança de que as coisas pudessem ficar melhores um dia,  pude perceber que foi plantada uma semente, um broto de idéia, um fio de luz no meio de tanta escuridão. Parece que ele pôde finalmente perceber que o que ele tinha dado como morto estava apenas em coma, ou respirando por aparelhos, mas ainda vivo, ainda pulsando.

E se nele, que carregava naquele momento tamanha descrença nas pessoas, na plantação, na esperança; se mesmo nele a semente conseguiu germinar, por que não crer que ela não germinará em você também?








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